27 de abril de 2014

     Em uma segunda-feira, feriado nacional, o ônibus saia do Rio de Janeiro com destino a Ouro Preto. Na primeira fileira um casal com aproximadamente 70 anos e aconchegante sotaque mineiro embarcava às 7h30. A senhora indicava a poltrona, sentando do lado do corredor. Ao lado de fora um outro casal, a filha e seu acompanhante - suponho namorado/marido. Como dizem, quando chegamos a velhice parece que voltamos a infância. A filha espera o ônibus seguir para dar o último tchau, como seus pais deviam fazer nos seus passeios da escola. Os papéis estavam invertidos e com um olhar de saudade a moça estava. Do lado de dentro a mãe dizia que ligaria quando chegasse. O simpático senhor disse: Ele é muito legal e disse que está apaixonado por ela - o carinho era visível nos olhares do maduro casal. O motorista entrou e avisou da partida. Motor ligado, a despedida começou junto aos beijos enviados. Do lado de fora, mas sentindo o abraço dos pais, a mulher chorava e o namorado/marido a abraçava. Até breve, dizia a mãe que terminou dizendo que apesar da demora do ônibus, a despedida é melhor do que na viagem de avião. Entre o vidro circulam histórias, chegadas e partidas.

16 de abril de 2014

Tentativa falha

O vento frio que entrava pela fresta aberta da janela tocava sua pele de forma minuciosa. O arrepio subia por todo seu corpo até se acolher entre as cobertas. A música tocava e mais nada conseguia ouvir – a não ser o barulho da chuva, a melhor parte do seu dia. Relembrava as conversas da semana. Percebeu quantas besteiras deve ter falado. O que pensou em dizer continua armazenado esperando o momento em que o medo nada será. Não só o medo, já que em certos momentos perde os sentidos. Então imaginou tais conversas se dissesse o que queria. Criou diálogos e expectativas. Foi dormir. Acordou achando que tudo não passou de um sonho. Seguiu mais um dia sem saber o que fazer (a espera do momento de no seu quarto inventar mais um dia). 

7 de abril de 2014

A cena era tão incomum que pedia que eu me sentasse em frente para observar. A vida anda tão corrida, com tantos compromissos e desilusões, que poucos são os que param para apreciá-la. Mas aquele convívio a ser visto era tão enlaçado que me abraçava de longe. Ela era uma doce senhora no alto de seus 80 anos e ao seu lado uma criança, que acreditei ser seu neto, com uns 10 anos. Há 70 anos atrás, aproximadamente, ela devia ter a idade dele. Seu olhar cheio de recordações acalorava o menino que lia um livro. A praça já não era a mesma, muito menos suas companhias, mas a história se repercutia por suas gerações e a senhora não conteve as lágrimas. O menino olhou para ela, após ouvir o soluço, e ela retribuiu com um sorriso tão ingênuo como se tivesse apenas 10 anos. Ele fechou o livro e os dois começaram a conversar. Durante os cinco minutos seguintes fizeram isso, abraçados, até eu ter que sair para cumprir mais um compromisso, aqueles da vida tão corrida. Contudo, agora eu estava acolhida por aqueles tais desconhecidos que resistimos tanto em não ver. 
Eles estavam esticados como se viessem ao meu encontro. Cada detalhe, dobra, pinta parecia desenhado de forma a encobrir a camada de sentimentos que você resistia em esconder. Nada mais era certo e a adrenalina dos dias era maior. A descoberta, tão inquieta, acreditava que cada segundo poderia ser transformado em horas. Logo ela, que não se cansava de buscar e encontrar surpresas, para nessas gerar mais adrenalina. Tão quieta, mas tão atrapalhada no trânsito dos pensamentos, pois esses nunca se cansam. Não conseguia mais organizar nada e resolveu ir em frente sem saber o que viria. O simples fato de encorajar-se já bastava para não confiar em si e em seus pensamentos. Uma roda gigante que não para como tudo que se passa dentro dela.

17 de março de 2014

Pingado como uma gota qualquer
Jorrava amor por onde andava
Condensava-se em uma forma cristalina
Que por onde passava derretia quem o via
Em busca do estado perfeito,
Inatingível
Encontrava-se com outros mares
E fundiam-se
Para em um serem dois
Tão irreal,
Pois é incompleta a fusão
E eterno o estado [de] sólid[ã]o

18 de dezembro de 2013

Antagonismo

    Enquanto desembaraçava as pontas do cabelo, você do outro lado da cama dizia que estava tudo bem. As recordações já se foram -para um lugar secreto, porque se elas desaparecessem, ah, quão mais bela a vida seria! Você está no nono copo e ainda acha que tudo esta bem. Bem mal, talvez você tentasse dizer, pena que não sabe se expressar direito. Tão cheio de vazio, anulava qualquer esperança de um ser, e eu não sei o que fui achar em você. Já bastava um olhar seu para o meu despedaçar e eu desacreditar em mim por acreditar em você. Deitei e no silêncio busquei razões para a felicidade. Seus carinhos, tão raros mas intensos, tocaram meu corpo de uma forma tão real que abri os olhos. Ilusão de iludida. Fechei-os e retornei a pensar no início, me dei conta que há um mês te conheci, e o que você faz aqui? Se eu soubesse quem sou eu consideraria essa pergunta justa, mas se eu não sei quem eu sou, para que saber quem você é? Necessidade de necessitada. Mas se eu deixasse isso passar seria cheia de vazio, como você, e de nada teria adiantado pensar nisso tudo. Parece que eu voltava ao início. Ah, a iludida cheia de necessidade. Vazia de amor, mas cheia de amor guardado para quando estiver cheia de vazio. Iludida necessidade de amor.

3 de dezembro de 2013

Quero conversar
Falar sobre tudo
Falar sobre o mundo
Falar do perigo que é
Viver longe de tudo
Virada para o escuro
Do televisor ligado
Com o caos instalado

Mascarada de mim
Iludida por ela,
quadrada aquarela
Sem cor
Inibindo a dor
Entretendo nós, ator.