2 de maio de 2014

A história começa quando uma das situações que mais me deixa feliz nessa vida é descobrir que algum(a) cantor/cantora/banda que eu goste fará show em data e local acessíveis. O que provoca a possibilidade de decepção, na mesma proporção da felicidade, caso eu não vá. Partindo do pressuposto que o mês de maio será o mais preenchido de amor em forma de som junto a reflexão sobre o papel da música, para mim, em um filme, venho escrever. Apenas o fim, de Matheus Souza. Não me cabe contar a história do filme aqui, muito menos avaliá-lo. Basta dizer que até o final o filme me parecia ok, nada de extraordinário, mas com uma história que acabou me envolvendo até lá - alguns sabem da minha dificuldade. Certamente levou a algumas reflexões e imaginações, principalmente na cena da despedida, e das que proporcionaram ela. Mas o que colocou uma faca no coração ou fez o chão desmoronar foi quando a música "Pois é" começou a tocar. Pois é... Junto as cenas que passavam ao mesmo tempo, foi um elo de todo o filme e fez com que a história tivesse um ar mais sentimental e mais triste, mesmo não tendo isso tão marcante ao longo do tempo. Somos todos diferentes e aí está a graça, mas caso você seja daqueles(as) que se deixa levar e ser tocado(a) pela música, talvez compartilhe essa sensação ao ver o filme. E quanto ao motivo disso, a música, ela continua por ai, marcando e eternizando momentos - algumas vezes mais (intensamente e humanamente) que a fotografia. E que fique a vontade de ouvi-la mais e permitir-se envolver mais ainda.

"Avisa que é de se entregar o viver" (Música: Pois é - Los Hermanos)

"Esse é só o fim. O que realmente importa já foi feito. A gente já teve nossos momentos especiais. E é isso que importa no fim. Ter alguma coisa pra lembrar, alguma coisa pra nunca esquecer, alguma coisa que não tem fim." (Filme: Apenas o fim - Matheus Souza)
"Um olho abriu e o outro descobriu. A poesia à toa. A nostalgia boa."
Phill Veras mais uma vez aqui com uma das melhores músicas do disco Gaveta junto a Basta Coragem e Faz.

27 de abril de 2014

     Em uma segunda-feira, feriado nacional, o ônibus saia do Rio de Janeiro com destino a Ouro Preto. Na primeira fileira um casal com aproximadamente 70 anos e aconchegante sotaque mineiro embarcava às 7h30. A senhora indicava a poltrona, sentando do lado do corredor. Ao lado de fora um outro casal, a filha e seu acompanhante - suponho namorado/marido. Como dizem, quando chegamos a velhice parece que voltamos a infância. A filha espera o ônibus seguir para dar o último tchau, como seus pais deviam fazer nos seus passeios da escola. Os papéis estavam invertidos e com um olhar de saudade a moça estava. Do lado de dentro a mãe dizia que ligaria quando chegasse. O simpático senhor disse: Ele é muito legal e disse que está apaixonado por ela - o carinho era visível nos olhares do maduro casal. O motorista entrou e avisou da partida. Motor ligado, a despedida começou junto aos beijos enviados. Do lado de fora, mas sentindo o abraço dos pais, a mulher chorava e o namorado/marido a abraçava. Até breve, dizia a mãe que terminou dizendo que apesar da demora do ônibus, a despedida é melhor do que na viagem de avião. Entre o vidro circulam histórias, chegadas e partidas.

16 de abril de 2014

Tentativa falha

O vento frio que entrava pela fresta aberta da janela tocava sua pele de forma minuciosa. O arrepio subia por todo seu corpo até se acolher entre as cobertas. A música tocava e mais nada conseguia ouvir – a não ser o barulho da chuva, a melhor parte do seu dia. Relembrava as conversas da semana. Percebeu quantas besteiras deve ter falado. O que pensou em dizer continua armazenado esperando o momento em que o medo nada será. Não só o medo, já que em certos momentos perde os sentidos. Então imaginou tais conversas se dissesse o que queria. Criou diálogos e expectativas. Foi dormir. Acordou achando que tudo não passou de um sonho. Seguiu mais um dia sem saber o que fazer (a espera do momento de no seu quarto inventar mais um dia). 

7 de abril de 2014

A cena era tão incomum que pedia que eu me sentasse em frente para observar. A vida anda tão corrida, com tantos compromissos e desilusões, que poucos são os que param para apreciá-la. Mas aquele convívio a ser visto era tão enlaçado que me abraçava de longe. Ela era uma doce senhora no alto de seus 80 anos e ao seu lado uma criança, que acreditei ser seu neto, com uns 10 anos. Há 70 anos atrás, aproximadamente, ela devia ter a idade dele. Seu olhar cheio de recordações acalorava o menino que lia um livro. A praça já não era a mesma, muito menos suas companhias, mas a história se repercutia por suas gerações e a senhora não conteve as lágrimas. O menino olhou para ela, após ouvir o soluço, e ela retribuiu com um sorriso tão ingênuo como se tivesse apenas 10 anos. Ele fechou o livro e os dois começaram a conversar. Durante os cinco minutos seguintes fizeram isso, abraçados, até eu ter que sair para cumprir mais um compromisso, aqueles da vida tão corrida. Contudo, agora eu estava acolhida por aqueles tais desconhecidos que resistimos tanto em não ver. 
Eles estavam esticados como se viessem ao meu encontro. Cada detalhe, dobra, pinta parecia desenhado de forma a encobrir a camada de sentimentos que você resistia em esconder. Nada mais era certo e a adrenalina dos dias era maior. A descoberta, tão inquieta, acreditava que cada segundo poderia ser transformado em horas. Logo ela, que não se cansava de buscar e encontrar surpresas, para nessas gerar mais adrenalina. Tão quieta, mas tão atrapalhada no trânsito dos pensamentos, pois esses nunca se cansam. Não conseguia mais organizar nada e resolveu ir em frente sem saber o que viria. O simples fato de encorajar-se já bastava para não confiar em si e em seus pensamentos. Uma roda gigante que não para como tudo que se passa dentro dela.

17 de março de 2014

Pingado como uma gota qualquer
Jorrava amor por onde andava
Condensava-se em uma forma cristalina
Que por onde passava derretia quem o via
Em busca do estado perfeito,
Inatingível
Encontrava-se com outros mares
E fundiam-se
Para em um serem dois
Tão irreal,
Pois é incompleta a fusão
E eterno o estado [de] sólid[ã]o